SinduCon-SP debate eventos climáticos extremos com a cadeia produtiva e a sociedade

Daniela Barbará

Por Daniela Barbará

SinduCon-SP debate eventos climáticos extremos com a cadeia produtiva e a sociedade
Zylberman, Maria Tereza, Borges. Goldemberg e Vasconcellos

Os impactos ambientais, econômicos, jurídicos e sociais no setor imobiliário foram os principais pontos debatidos por toda a cadeia produtiva no webinar “Eventos Climáticos Atuais: Impactos na Incorporação e Construção”, realizado pelo SindusCon-SP, Fecomercio-SP e Secovi-SP no dia 30 de junho. A jornalista Maria Tereza Gomes mediou o encontro virtual, que também foi acompanhado pelo presidente do SindusCon-SP, Odair Senra.

A diferença entre o momento que estamos vivendo com a pandemia e os eventos climáticos mundiais é que no primeiro sabemos que terá um final e como devemos proceder para chegarmos até lá. Já o outro os cidadãos lidam com certa tolerância e indiferença. “Qualquer negacionismo nessa área é pura ignorância”, pontuou o Prof. José Goldemberg, presidente do Conselho de Sustentabilidade da Fecomércio-SP. De acordo com Goldemberg, já existem sinais inequívocos de que a temperatura do planeta está subindo, assim como os níveis dos mares. “São situações absolutamente reais e mensuráveis”.

O professor afirmou ainda que é preciso rever imediatamente o que está sendo realizado em termos de projetos e materiais construtivos porque terão grandes impactos nas próximas décadas. “A construção com menor emissão de carbono já deve ser realizada. Não é necessário esperar o governo perceber o problema daqui 10 anos porque quando isso acontecer vão colocar taxas e incluir no IPTU, premiando os bons e punindo os maus. Assim como já acontece nos EUA e na Europa”.

Por fim, acrescentou que o regime de chuvas em São Paulo vai mudar drasticamente sendo mais concentradas em períodos mais curtos. No resto do Brasil, o esperado é que o cerrado vai ficar mais seco e com o desmatamento da Amazônia o clima do país como um todo sofrerá mudanças significativas.

Ambiental, Social e Governança

Francisco Antunes de Vasconcellos Neto, vice-presidente do SindusCon-SP

Francisco Antunes de Vasconcellos Neto, vice-presidente do SindusCon-SP pontuou que até pouco tempo atrás se falava de sustentabilidade pelo viés econômico, social ambiental. E hoje no  ESG – Environmental, Social and Governance (em português, Ambiental, Social e de Governança) estamos falando de governança. “Ou seja, os três itens não vão funcionar se não tivermos uma governança bastante clara e definida nas empresas. Esse é um aspecto que está sendo valorizado e precificado nos investimentos. É uma tendência que não vai mudar”.

De acordo com o vice-presidente do SindusCon-SP, existem empresas no mercado que ainda não estão preocupadas com esses pilares. “Os projetos ainda não levam em consideração as mudanças que já estão acontecendo. É necessário que entendam e se adaptem. Ter a sustentabilidade efetivamente introduzida nos conceitos e diretrizes de negócios das empresas é um primeiro e grande passo para o futuro”.

Em relação ao mercado do setor da construção civil, Carlos Alberto de Moraes Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP pontuou que de uma forma geral grande parte das empresas não tem capital aberto, somente cerca 15%, e um grande volume são de empresas pequenas, que estão muito distantes do conceito de sustentabilidade. “A realidade em termos de conscientização ainda está focada em um grupo muito pequeno de empresas. Da mesma forma, a legislação ainda está dispersa e pulverizada muito ligada aos interesses específicos e sem a visão global da sustentabilidade”.

Curto Prazo

Aron Zylberman, diretor executivo dos Institutos Cyrela e Cyrela Commercial Properties e conselheiro de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) destacou que no sistema capitalista liberal, a sociedade vive o chamado curtoprazismo, a incapacidade de olhar prazos mais longos. “Os ciclos de vidas de nossos edifícios vão durar décadas e em contrapartida as mudanças climáticas vão ocorrer em um prazo menor. Isso tornará nossos ativos obsoletos. Infelizmente essa não é uma visão comum no empresariado e na sociedade em geral”.

Para Zylberman, em relação aos impactos negativos nas cidades haverá uma degradação que impactará a sociedade como um todo e especificamente as próximas gerações. “Existem ciência e tecnologia disponíveis para que o setor possa se apropriar de soluções que estão ao nosso alcance. Mas objetivamente muito pouco é feito”.

Longo prazo 

A visão de longo prazo traz uma aderência muito forte com as questões de sustentabilidade.  “Nos últimos anos aumentou a procura de investidores em tornos de alternativas que contemplassem a sustentabilidade e ESG. Além disso, surgiram meios, métricas e ferramentas que comparam investimentos em empresas que efetivamente adotam boas práticas ambientais, sociais e de governança e outras em estágios diferentes”, afirmou Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil. Ressaltou que em momentos de crise como a que estamos vivendo com o Covid-19, diferencias de sustentabilidade tem sido decisivos na decisão dos investimentos.

Em relação aos impactos das mudanças climáticas nos seguros nas construções, Adolfo Accurti Neto, diretor comercial da Atix Seguros, destacou as precauções necessárias com as cláusulas contratuais e suas abrangências, indenizações, condições gerais e especiais. “É importante ter um amplo conhecimento e ser bem assessorado para não ser surpreendido na hora de um sinistro”, afirmou.

Evento excepcional e o novo normal

A indústria imobiliária (incorporação, construção e urbanização) é diretamente impactada pela nova realidade climática que interfere na qualidade e no desempenho da construção, bem como no prazo de entrega das obras. Os eventos naturais atribuíveis às mudanças climáticas são ou não são força maior a justificar a isenção de responsabilidade do empreendedor? Questionou Marcelo Terra, membro do Conselho Jurídico do Secovi-SP.

De acordo com Terra, é indispensável uma análise de cada caso concreto para aferição exata de dois elementos: demonstração cabal da excepcionalidade e o nexo causal entre o evento da natureza e o dano causado ao empreendimento. “Deve o empreendedor se preocupar com a gestão e administração do contrato e sua execução, por exemplo, com bom diário de obra para demonstração futura de que o evento na natureza era efetivamente excepcional. Mas o novo normal pode implicar na necessidade de uma alteração do padrão até então conhecido e adotado como parâmetro”.

Envolvimento do Cliente

Maria Tereza, ao fazer o encerramento do evento, reforçou a importância do envolvimento do cliente, aspecto este abordado por todos os palestrantes e também pelos participantes que enviaram sugestões sobre como as empresas devem considerar as necessidades de desempenho ambiental desejada por eles nos imóveis. Apontado como ponto chave pelo professor Goldemberg, “o setor deve se valer do marketing para acelerar as mudanças”

“Na minha opinião se não há vendas, nada existe. Quando os incorporadores e construtores ´sentirem´ que itens de sustentabilidade inseridos nas construções aceleram as vendas, tudo será mais fácil”, afirmou o presidente do SindusCon-SP, Odair Senra.

Apoiadores

A íntegra do encontro está disponível aqui. O evento contou com os seguintes apoiadores: Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Câmara Brasileira da Indústria da Construção – (CBIC), Instituto de Engenharia (IE), Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (Proacústica), Associação Brasileira de Automação Residencial e Predial (AURESIDE), Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE), Green Building Council Brasil (GBC BRASIL), Associação para o Progresso de Empresas de Obras de Infraestrutura Social e Logística (APEOP),  Associação Brasileira pela Conformidade e Eficiência de Instalações (Abrinstal), CB-002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais (Abrasip),  Instituto de Impermeabilização (IBI), Associação Brasileira das Empresas de Consultoria e Engenharia Ambiental (AESAS), Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) e Jabuticaba Conteúdo.

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