Projetos ingleses de retrofit destacam Battersea Power Station e Barbican

Rafael Montagnini

Por Rafael Montagnini

Projetos ingleses de retrofit destacam Battersea Power Station e Barbican

Ricard, Adriana, Elisabete, Bianchi, Bernardes e Gavião, nos debates finais do 2º Seminário Internacional de Retrofit

A segunda parte do 2º Seminário Internacional de Retrofit Urbano do SindusCon-SP, realizada no Centro de Convenções Milenium (Vila Clementino, São Paulo), reuniu arquitetos, urbanistas, integrantes dos governos municipal e estadual, representantes do setor imobiliário e da construção civil, além de especialistas brasileiros e internacionais.

A programação da tarde foi aberta com a palestra “Retrofit térmico de grandes fachadas”, apresentada por William Medeiros, gerente técnico, comercial e de marketing da Sto Brasil Revestimentos e Fachadas. O especialista destacou dois cases,  o primeiro foi o retrofit térmico de um edifício comercial para mudança de uso e adequação ao novo projeto arquitetônico, transformando a antiga sede da SulAmérica Seguros na escola internacional Avenues School. O segundo caso abordou o retrofit de um edifício comercial que abriga a sede da Igreja Deus é Amor, construída por mutirão de fiéis na cidade de São Paulo, onde os revestimentos orgânicos e a camada de emboço estavam condenados.

Na sequência, a palestra “Tecnologia que transforma: como a modernização de elevadores eleva o desempenho do edifício no retrofit” foi conduzida por José Waldemir Macari Junior, gerente executivo de modernização na Atlas Schindler. O especialista destacou a importância dos elevadores nos projetos de retrofit e apresentou dois casos na cidade de São Paulo. No edifício da Secretaria da Fazenda, a modernização tornou a jornada dos usuários mais rápida e fluida, com redução de espera e maior agilidade nos deslocamentos. Já no Theatro Municipal, as intervenções garantiram acessibilidade por meio da instalação e modernização de elevadores, resultado de um amplo projeto de requalificação.

O arquiteto Sebastien Ricard, da Wilkinson Eyre Architects, responsável pela área de transformação do escritório, apresentou o projeto Battersea Power Station. Construída em duas etapas, nas décadas de 1930 e 1950, a usina teve projeto original do arquiteto inglês Giles Gilbert Scott, também responsável por ícones como as cabines telefônicas vermelhas e a Tate Gallery. Por se tratar de um edifício tombado, a intervenção respeitou integralmente a arquitetura original, mesmo diante do avançado estado de deterioração.

A iniciativa requalificou a histórica usina termelétrica a carvão, desativada nos anos 1980, transformando-a em um amplo complexo de uso misto. O projeto foi financiado por um consórcio malaio e preservou elementos originais tombados, incorporando habitação, escritórios, comércio, equipamentos culturais e uma área para concertos com capacidade para 1.400 pessoas. O complexo abriga ainda a sede europeia da Apple. 

Um dos destaques foi a adaptação de uma das chaminés icônicas em um elevador panorâmico de vidro. A intervenção também incluiu a requalificação urbanística do entorno, criando um novo polo de desenvolvimento em Londres. “Nós mantivemos os detalhes industriais, como os tijolos originais e peças da usina, sem escondê-los; ao contrário, eles foram incorporados ao projeto como elementos centrais, valorizando a identidade histórica do edifício”, disse. 

Finalizando as palestras, o professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), com pós-doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Paulo Bruna, apresentou o projeto Barbican,  que fica dentro da City de Londres, centro financeiro e histórico da capital inglesa, onde fica o Banco da Inglesa e sede de muitas grandes empresas. 

Implantado em uma área devastada pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o conjunto, inaugurado em 1981, tornou-se referência internacional em reconstrução urbana, habitação de alta densidade e integração de usos, reunindo moradia, escola, quadras de tênis, jardins, igreja e equipamentos culturais. O Barbican abriga um dos maiores centros culturais da Europa, sendo sede da Royal Shakespeare Company e da London Symphony Orchestra.

Debate

O evento foi encerrado com um debate mediado por Marcos Gavião, coordenador do seminário e diretor adjunto de Imobiliário do SindusCon-SP. Ele abriu a palavra para Claudio Bernardes, ex-presidente do Secovi-SP, que destacou o projeto Battersea como referência para o Brasil. Segundo ele, trata-se de um bem tombado que foi aproveitado de forma exemplar, conciliando preservação e requalificação. Bernardes ressaltou que, no Brasil, as restrições ainda são elevadas, muitas vezes inviabilizando iniciativas semelhantes, e defendeu que o patrimônio pode ser transformado sem perder sua essência, com boa governança.

O palestrante Sebastien Ricard afirmou que o sucesso do Battersea está diretamente ligado ao pacto entre poder público e iniciativa privada, modelo que, segundo ele, o Reino Unido executa com eficiência. Destacou que a transformação não se limitou ao edifício, mas envolveu toda a requalificação do entorno urbano, com forte atuação das autoridades no controle e planejamento do território. Ricard também ressaltou a importância do faseamento das obras, permitindo ajustes conforme as condições de mercado, o que garante flexibilidade entre usos comerciais e residenciais ao longo do tempo.

Mauricio Bianchi, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP, afirmou que projetos de retrofit dificilmente se viabilizam sem apoio institucional e condições adequadas de financiamento, como subsídios ou juros mais baixos. Ao questionar Ricard sobre o impacto do retrofit na geração de empregos, especialmente para profissionais fora do mercado, o arquiteto destacou que um dos desafios foi justamente selecionar empresas qualificadas e que a mão de obra envolvida era majoritariamente experiente, com profissionais entre 30 e 50 anos de atuação na construção civil.

Elisabete França, secretária municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo, destacou as diferenças no processo de aprovação de projetos entre Londres e São Paulo, apontando maior flexibilidade no modelo britânico. Segundo ela, enquanto Londres discute soluções para uma cidade altamente adensada, no Brasil ainda há resistência a edificações de maior porte. Defendeu a necessidade de enfrentar o debate sobre adensamento urbano e planejamento adequado às demandas contemporâneas.

Marcos Gavião reforçou a importância de maior flexibilidade ao longo da execução dos projetos, destacando que ajustes são inevitáveis durante as obras e devem ser incorporados ao processo.

Adriana Levisky, coordenadora do Grupo Técnico de Legislação da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), chamou atenção para a necessidade de atualização contínua dos projetos ao longo do tempo. Citou exemplos como Barbican e Battersea, que passaram por revisões para se manterem aderentes às novas demandas urbanas. Segundo ela, há um modelo de governança em que o desenvolvimento do projeto acompanha sua evolução, o que foi corroborado por Ricard.

Ele também acrescentou que Londres adota uma abordagem flexível do ponto de vista regulatório, permitindo ajustes em projetos que tragam benefícios à cidade, mesmo que impliquem revisões em diretrizes estabelecidas. 

Encerrando o debate, Paulo Bruna destacou a baixa densidade do centro de São Paulo, especialmente em áreas estratégicas como a que abrigará a nova sede do governo paulista. Segundo ela, trata-se de uma região com ampla infraestrutura e oferta de serviços, o que reforça a necessidade de políticas que incentivem maior ocupação e aproveitamento urbano.

Patrocínio

O 2º Seminário Internacional de Retrofit Urbano do SindusCon-SP teve patrocínio da CAIXA: “Tem Patrocínio CAIXA, tem Governo do Brasil”. O evento também contou com patrocínio da Samsung, Atlas Schindler e STO Brasil.

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