Lançadas a CEHídrica e a Plataforma Construção Sustentável SindusCon-SP
Por Rafael Marko
Evento lotou o Salão Nobre da Fiesp com mais de 160 participantes
O SindusCon-SP, por meio do Comasp (Comitê de Meio Ambiente) e do CTQ (Comitê de Tecnologia e Qualidade), lançou em 13 de maio, no Salão Nobre da Fiesp com a participação de mais de 160 pessoas, a CEHídrica, calculadora que mede o impacto hídrico ao longo do ciclo de vida de edificações, e a Plataforma Construção Sustentável SindusCon-SP, com ferramentas para auxiliar soluções sustentáveis de construtoras, incorporadoras e projetistas.
Abrindo o evento “Construir com Impacto Positivo – Eficiência Hídrica e Inovação na Construção Civil”, Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, afirmou que, com os lançamentos realizados no evento, “mais uma vez reforçamos o comprometimento do SindusCon-SP no desenvolvimento de soluções para o setor, que viabilizem a construção sustentável de forma consistente e sem onerar as empresas. Com isso, empresas de qualquer porte da construção poderão participar da agenda de sustentabilidade e atender às demandas de legislações e certificações.”
Estefan também historiou a trajetória realizada até o desenvolvimento da CEHídrica, agradecendo ao vice-presidente e coordenador do Comasp, Francisco Antunes de Vasconcellos Neto, e às parcerias com Fiesp, CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), Caixa Econômica Federal, GBC (Green Building Council) Brasil, Saint-Gobain, empresas associadas ao SindusCon-SP e Sabesp, que viabilizaram a calculadora.
Renato Correia, presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), destacou que o Comasp tem realizado um trabalho relevante em prol da sustentabilidade da construção, agradecendo a Vasconcellos e a Lilian Sarrouf, coordenadora técnica do Comasp, pela atuação na CBIC. Afirmou que a entidade seguirá divulgando a CEHídrica e a Plataforma Construção Sustentável SindusCon-SP em todo o país, por entender que estes temas são estruturantes para o presente e para o futuro da construção.
Maria Claudia de Souza, diretora de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da CDHU, representando Reinaldo Iapequino, presidente da companhia, ressaltou que a questão da sustentabilidade passou a ser emergente. Nesse sentido, a CEHídrica e a Plataforma são essenciais para a qualidade de vida da população e o futuro das cidades, disse. A companhia, que já utiliza a CECarbon do SindusCon-SP, agora passará ao uso da CEHídrica para toda a cadeia desenvolvida em suas obras, para que a sociedade possa ver os esforços feitos em sustentabilidade, completou.
Alexandre Martins Cordeiro, superintendente Nacional da Caixa Econômica Federal, destacou as ações de sustentabilidade da instituição financeira, via Selo Azul+Caixa, e reforçou o apoio a iniciativas como as do SindusCon-SP na construção de cidades mais sustentáveis e resilientes.
Paulo Skaf, presidente da Fiesp, destacou que “a construção civil é muito relevante para o país e o SindusCon-SP é uma entidade muito eficiente, o que vocês estão fazendo aqui é economia, competitividade, benefícios ao meio ambiente”. Segundo Skaf, “precisamos estar unidos, porque todo dia tem uma notícia que fere a segurança jurídica, e quando a insegurança vem da própria Justiça, a quem iremos recorrer?” Falou ainda da necessidade de adaptação à velocidade das mudanças tecnológicas e manifestou preocupação com a deficiência da educação para este novo tempo. Estefan afirmou que o SindusCon-SP se sente muito representado pela atual gestão da Fiesp.
Soluções sustentáveis
Francisco Vasconcellos apresentou a CEHídrica e a Plataforma Construção Sustentável SindusCon-SP. Destacou em sua apresentação que a plataforma reforça a busca de soluções sustentáveis para a construção, de acesso gratuito, contendo todas as ferramentas de sustentabilidade desenvolvidas pelo SindusCon-SP. Mencionou a consolidação da CECarbon, lançada há cinco anos e em contínuo aperfeiçoamento. Mostrou os indicadores de emissões de gases de efeito estufa de 2026, calculados a partir dos dados da CECarbon, e que seguem bastante abaixo dos indicadores de países desenvolvidos. Agradeceu às empresas associadas ao SindusCon-SP e entidades que apoiaram o desenvolvimento da calculadora.
O vice-presidente destacou a trajetória que levou ao desenvolvimento da CEHídrica, a participação da Fiesp e da ANA no desenvolvimento do Manual de Conservação e Reuso da Água em Edificações, em 2005, e a elaboração do Guia Metodológico de Pegada Hídrica, em 2019, com a parceria da Caixa e do PNUD. Mostrou como a ferramenta facilita o cálculo da pegada hídrica e proporciona dados para a gestão dos recursos hídricos pelo setor. E destacou as instituições e empresas associadas que viabilizaram a ferramenta.
Neutralidade hídrica
A especialista Virginia Sodré palestrou sobre “Proposta de valor: do conhecimento do impacto à neutralidade hídrica de empreendimentos”. Em sua apresentação, mostrou que a construção civil responde por 15% do uso global da água. No Brasil, a água vem sendo cada vez mais disputada por setores como a agropecuária e a construção, e em regiões desprovidas de água em abundância. A crise climática, uma crise hídrica em sua essência, traz riscos cada vez maiores em termos de escassez de água. Pequenas ações como redução do uso de água em bacias sanitárias e chuveiros evitam o desperdício de milhões de m³ de água.
Virginia citou iniciativas como as da Inglaterra, onde a construção de novos edifícios em algumas áreas é condicionada à limitação do consumo da água e as construtoras precisam realizar ações de compensação da pegada hídrica. Empresas que exportam para o mercado europeu precisam comprovar que suas ações de racionalização e compensação são auditadas.
Segundo a especialista, a CEHídrica proporcionará às construtoras medir, reduzir e compensar a pegada, levando à neutralidade hídrica. Preconizou a adoção de ações como sistemas de reuso nas edificações, melhorias na drenagem em seu entorno e reflorestamento, o que também reduzirá as emissões de carbono.
Políticas públicas urbanas
Maria Claudia de Souza e Mônica Rossi, da CDHU, abordaram “Políticas públicas voltadas à resiliência urbana e edifícios”. Em sua apresentação, Maria Claudia mostrou o Plano de Desenvolvimento Urbano e Habitação da companhia, que tem como eixos estruturantes: urbanismo e habitação social, infraestrutura e mobilidade, e meio ambiente e mudanças climáticas, que propõem políticas que incluem segurança hídrica. Mostrou mapas do Estado de São Paulo com os pontos de aquecimento e risco de incêndios, os pontos críticos de precipitação hídrica, os mananciais, os pontos com escassez hídrica, o atendimento habitacional nas áreas de maior pressão hídrica, e como estes fatores impactam no atendimento habitacional nas áreas de maior pressão hídrica.
Monica Rossi relatou as iniciativas da CDHU como soluções sustentáveis baseadas na natureza e o projeto de centralidades que irá revitalizar centros urbanos. Enfatizou o termo de cooperação técnica assinado com o SindusCon-SP em dezembro de 2025, que promove o uso da CECarbon e da CEHídrica, o gerenciamento de resíduos, e fomenta soluções sustentáveis. Apresentou resultados da implantação das medições das emissões das obras, e falou da importância destes dados para o relatório de sustentabilidade das companhias.
Silvia Merendas Raimundo, da Caixa, abordou o tema “Pegada hídrica: requisitos para financiamentos verdes e Selo Casa Azul+Caixa”. Em sua apresentação, mostrou essa certificação voluntária e acessória ao financiamento imobiliário de empreendimentos habitacionais na Caixa. Desde sua criação em 2009, foram homologados 696 empreendimentos. Um dos quesitos é a gestão eficiente da água, e a CEHídrica será incorporada ao Selo, mediante uma parceria a ser firmada com o Comasp do SindusCon-SP, permitindo a medição e a gestão da pegada hídrica.
Alexandre Anderáos (ANA) palestrou sobre “Estruturando serviços de drenagem para tornar as cidades mais resilientes”. Em sua apresentação, mostrou as normas de referência de abastecimento de água e esgotamento sanitário da Agência, que incluem disposições sobre limpeza urbana, manejo dos resíduos verdes, drenagem e manejo das águas pluviais. Ele parabenizou as iniciativas do SindusCon-SP e colocou a ANA à disposição para avançar em temas relacionadas à eficiência hídrica.
Mediando os debates deste painel, Rodrigo von Uhlendorff, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP, indagou sobre a possibilidade de baratear os financiamentos imobiliários para empreendimentos sustentáveis. Silvia afirmou que a Caixa está trabalhando no desenvolvimento em uma linha de crédito destinada a construções habitacionais sustentáveis certificadas, com recursos do governo federal e do Banco Mundial.
Respondendo a outra indagação de Rodrigo von, Maria Claudia informou que a CDHU está implementando gradualmente as ferramentas de medição de emissões de carbono e pegada hídrica. E informou que também estão em andamento ações de sustentabilidade no pós-obra. O vice-presidente indagou a Anderáos como aproximar a ANA da sociedade e das normas técnicas. Segundo Anderáos, o contato tem sido mais com os prestadores de serviços e agências reguladoras nacionais e internacionais, havendo mais necessidade de interlocução com a iniciativa privada. Além disso, a agência tem participado na ABNT.
A outra indagação de Rodrigo von, Virginia Sodré afirmou que o desafio para a construção é grande, citou como exemplo a falta uma norma técnica de drenagem. Segundo ela, o setor precisa atuar normas e planejamento urbano, e motivar os fornecedores de materiais e equipamentos a diminuírem a pegada hídrica e as emissões de gases de efeito estufa. Respondendo a outra indagação, Vasconcellos afirmou que ainda não existem dados relativos à construção off-site, e ponderou que nem sempre a industrialização implica um menor índice de sustentabilidade, depende de como será utilizada.
Soluções baseadas na natureza
Anicia Pio, gerente do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, discorreu sobre “Uso eficiente da água na construção”. Destacou que temas como reuso da água são inerentes à indústria, relevantes para a competitividade. Mencionou a parceria com o SindusCon-SP na elaboração do manual de reuso na construção, entre outras ações. Ressaltou a importância da medição do uso da água, para possibilitar a redução da pegada hídrica. Citou soluções nas quais a indústria tem avançado, como chuveiros-flex, que no início aquecem a água com eletricidade que se desliga assim que o calor gerado pelo gás do aquecedor faça efeito. Destacou o esforço da indústria para a redução da pegada hídrica na sua produção.
Raquel Cruz, professora da PUC-Rio, abordou “Infraestruturas verdes e Soluções Baseadas na Natureza” (SBN). Em sua apresentação, destacou a importância de criação de parques – dependendo da região do país. As SBNs não se limitam a jardins de chuva, mas incluem a preservação de ecossistemas e manejos ativos dos ecossistemas para evitar a resiliência. Mostrou exemplos de boa ocupação do solo com manejo do ciclo da água, como em Florianópolis, São Paulo, Niterói, Campinas e Nova York. Convidou todos para participarem da Comissão de Estudos que está desenvolvendo normas de SBN na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
A “Contribuição do setor privado para o desenvolvimento urbano sustentável” foi apresentada por Ruth Portugal, diretora da Aelo (Associação das Empresas Loteadoras). Em sua apresentação, mostrou o case de loteamentos com soluções de sustentabilidade no interior de São Paulo, como rede subterrânea de gás, jardins de chuvas e biovaletas, obras para redução de enchentes, caminhos e quadras de tênis permeáveis, travessias para fauna e áreas verdes de lazer. Ressaltou que, além de eficientes, os empreendimentos com essas soluções são valorizados pelos clientes. Ruth lidera o tema na Câmara Ambiental da Cetesb, para que estes avanços possam ser reconhecidos como positivos nos licenciamentos ambientais.
Observatório da Construção Sustentável
Iniciando o período da tarde, Douglas Meirelles, Gerente de Public Affairs e Soluções Integradas na Saint-Gobain Brasil, apresentou o Observatório da Construção: Um olhar para o desenvolvimento da Construção Sustentável no mundo, trazendo dados de pesquisa mundial, incluindo o Brasil, sobre a percepção dos stakeholders em relação à construção sustentável. As informações obtidas servem para direcionamentos do setor.
Cases de sucesso
Alex Takaoka, CTO da Valor da Água, e Virginia Sodré foram os mediadores dos painéis que apresentaram cases reais de sucesso. Entre eles, de que forma outros setores como as Big Techs já têm investido na redução e compensação de pegada hídrica no setor de saneamento. O setor da construção deve trilhar este caminho para obter benefícios hídricos gerados por empresas de outros setores, de forma a obter recursos para ações de redução de pegada hídrica em empreendimentos.
Cases de redução e compensação de pegada hídrica por meio de investimentos foram mostrados, como a diminuição de perdas na distribuição de água pela Sanasa em Campinas, com as participações da Amanco e da Sanasa, em apresentação feita por Nayara Paques (Amanco) e Sabrina Rodrigues (Sanasa Campinas). Ana Lucia Szajubok, em sua apresentação relatou sobre redução de perdas como estratégia climática.
A modernização do sistema de tratamento de água não potável do edifício Citi Center em São Paulo, garantindo a funcionalidade do edifício mesmo em períodos de falta de água e não prejudicando as atividades de seus usuários, foi mostrada em apresentação realizada por Ricardo Avancini, head de Real Estate Services para o Brasil e Cone Sul da América Latina do Citibank.
Ana Rocha, da ProActive, fez uma apresentação sobre o “Panorama da Gestão Hídrica em Empreendimentos Residenciais”, as certificações existentes, as diversas soluções de sustentabilidade e de que forma estes instrumentos já trazem resultados significativos na eficiência hídrica durante o uso dos empreendimentos.
Sami Meira, da Ugreen, fez uma apresentação sobre “Comunicação e conscientização da indústria nas ações relacionadas a sua pegada hídrica”, abordando a Taxonomia Sustentável Brasileira que traz requisitos de eficiência hídrica para a obtenção de financiamentos. Também ressaltou a importância de se comunicar dados auditáveis das ações de sustentabilidade.
CEHídrica na prática
Vanessa Dias, supervisora de Meio Ambiente do SindusCon-SP, e o especialista Arthur Bispo Ferreira mostraram a “CEHídrica na prática – avaliação do impacto hídrico de empreendimentos”. Vanessa, em sua apresentação mostrou a calculadora, sua abrangência e características, o preenchimento de dados, indicadores gerados e as inovações da CECarbon e da CEHídrica, incluindo a versão em inglês. CEHidrica e CECarbon já estão integradas, o que facilita o gerenciamento pelas obras.
Arthur Ferreira, em sua apresentação, explicou os conceitos envolvidos na CEHídrica: inventário hídrico e seus coeficientes, inventário do ciclo de vida, pegada hídrica, pegada de escassez hídrica e eficiência hídrica.
Encerrando o evento, Felipe Faria (GBC Brasil) e Lilian Sarrouf, coordenadora técnica do Comasp, palestraram sobre “Compromissos setoriais e próximos passos”. Felipe destacou o quanto as ações de sustentabilidade hoje já podem ser medidas, demonstrando um aumento de valor os empreendimentos.