Encontro de construtores e incorporadores aponta caminhos para a redução de custos

Rafael Marko

Por Rafael Marko

Encontro de construtores e incorporadores aponta caminhos para a redução de custos

Evento do SindusCon-SP e do Secovi-SP oferece subsídios para enfrentar o cenário atual

Engenharia de valor, Lean Construction, construção sustentável e revisão do Plano Diretor da capital paulista são ferramentas relevantes para o enfrentamento dos aumentos de custos da construção. Esta foi a mensagem transmitida pelo 8º Encontro de Construtores e Incorporadores, que o SindusCon-SP e o Seconci-SP (Sindicato da Habitação) realizaram no formato híbrido, em 28 de junho.

Ao abrir o evento, Yorki Estefan, vice-presidente de Relações Institucionais do SindusCon-SP, destacou que o setor da construção enfrentou os desafios de trabalhar na pandemia, de ver os custos das commodities se elevarem, e agora o de enfrentar os aumentos de custos muito acima da variação do INCC. “Felizmente o setor tem gente muito criativa e este evento é mais uma oportunidade para a superação deste desafio”.

Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP, salientou a importância do encontro para gerar reflexão sobre os caminhos destinados a superar o cenário atual. Ely Wertheim, CEO do Secovi-SP, acrescentou que o evento contribui para apoiar as empresas em busca de margem que garanta a sobrevivência delas na atual conjuntura.

Milton Bigucci, que representa o Secovi-SP no CTQ (Comitê de Tecnologia e Qualidade) do SindusCon-SP, moderou os debates. Ele relatou que as entidades têm trabalhado bastante pela diminuição da tributação sobre produtos como aço e cimento. Entretanto, como os efeitos dessa medida são reduzidos, as entidades também estão focadas em redução dos custos dos projetos e em melhoria da produtividade.

Plano Diretor, custo adicional

Vladimir Iszlaji, diretor de Desenvolvimento Urbano da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), apresentou o panorama dos custos no cenário atual. Mostrou a variação do INCC de cerca de 30% nos últimos dois anos, junto com a queda da renda das famílias.

Adicionalmente, prosseguiu, o setor enfrenta restrições à construção de empreendimentos na capital paulista. Mostrou que, nos últimos, o setor produziu mais unidades, porém utilizando a mesma área, de 1 milhão de m² por ano. “O valor da outorga aumentou, mas o empreendedor continua pagando praticamente o mesmo de antes. Há muita área disponível nas operações urbanas, porém com dificuldades diversas para seu aproveitamento. Como consequência, no centro expandido consomem-se rapidamente as áreas disponíveis.”

Segundo Islaji, no programa Casa Verde e Amarela, embora tenha havido mais produção de habitações de interesse social na capital paulista, em Zeis (Zonas Especiais de Interesse Social) ela vem caindo desde 2018, porque lá só se pode construir para a mais baixa renda. A maior produção se concentra na Zona Leste, longe dos locais de trabalho, embora a proximidade tenha sido um dos objetivos do Plano Diretor.

Além disso, acrescentou, há um descompasso entre o número de dormitórios das unidades produzidas, a maioria com 1 dormitório, e o desejo de 50% do público por 3. O mesmo descompasso ocorre em relação à vaga de garagem, que a maioria deseja ter. “Ou seja, estamos produzindo moradias em que a maioria das pessoas não quer morar”, comentou. Ele apontou que as correções podem ser feitas na revisão do Plano Diretor, pois “a cidade não está caminhando para onde deveria”.

Engenharia de valor

Juliana Dias Ikejiri, da R. Yazbek, discorreu sobre engenharia de valor, uma metodologia para o desenvolvimento do projeto, visando a melhor relação entre a necessidade do cliente e o custo do produto. Segundo ela, no mercado imobiliário, a previsibilidade existente até certo ponto para o desenvolvimento dos produtos não acontece mais, pois há inovações, o comportamento do consumidor mudou e os custos aumentaram.

“Daí a importância de uma interação entre projetistas, incorporadora e construtora desde o início do desenvolvimento de produtos que caibam no custo.” Para exemplificar, Juliana apresentou um case de mudanças feitas no projeto de um empreendimento de alto padrão de sua empresa, visando a torná-lo mercadologicamente viável, sem perda da atratividade e até com acréscimo da qualidade. “A engenharia de valor precisa andar junto com o desenvolvimento do projeto, para viabilizar o produto e aumentar seu potencial de venda, sem impactar no custo”, resumiu.

Requisitos de sustentabilidade são aplicados em todos os empreendimentos da R. Yazbek, destacou, porque o consumo das novas gerações está cada vez mais ligado a esse conceito. Além disso, a engenharia de valor tem a possibilidade de minimizar custos de pós-obra, embora também a execução seja responsável para tanto.

Mais produtividade

Flavio Picchi, presidente do Lean Institute Brasil, abordou a transformação da produtividade por meio do Lean Construction. Segundo ele, a aplicação desta filosofia de gestão na construção vai além da redução de custos e da eliminação de desperdícios e de atividades que não agregam valor. Seus princípios são: agregar valor ao cliente no projeto e na realização das atividades pelas quais o cliente quer pagar; olhar o fluxo do valor; olhar a cadeia produtiva toda; colocar tudo em fluxo contínuo e fazer as atividades no momento necessário.

Para ajudar na competitividade das empresas, a filosofia precisa estar impregnada em toda a empresa, incluindo os terceirizados. Mostrou vários tipos de desperdícios em produção, logística, planejamento, bem como o que fazer para evitá-los. Na obra, podem-se observar e discutir os desperdícios nos processos de trabalho, simplificando etapas, e adotando medidas de planejamento e padronização que elevem a produtividade em até 30% ou mais, segundo ele.

O presidente do Lean Instituto Brasil destacou a importância de: expor os problemas e resolvê-los rapidamente; reduzir o tempo entre o fim de uma atividade e o início da seguinte, visando à redução do prazo da obra; realizar os serviços em pequenos lotes, o que possibilita rápidas correções de execução e reduz custos posteriores no pós-obra.

Picchi mostrou que o Lean Office, aplicado nos processos administrativos, eleva a produtividade. Para tanto, segue os mesmos passos de observação, eliminação de desperdícios, otimização de fluxos e redução de prazos. A filosofia também pode ser aplicada na cadeia toda, com ferramentas como a engenharia de valor para otimizar o produto que o cliente quer, incluindo projeto, materiais de construção e logística de entrega na obra. “A industrialização da construção tem avançado nos últimos anos, espelhando-se na indústria automobilística, de onde veio o Lean.”

Os resultados se traduzem em orçamentações mais seguras, reduções de prazos de entrega, aumento da qualidade das obras, elevação de vendas e boa reputação da empresa, fatores relevantes para enfrentar os desafios do cenário atual. Para tanto, o Lean tem que ser assumido inicialmente pela direção da empresa; ela precisa trazer conhecimento sobre como aplicá-lo; padronizar os processos em uma primeira obra para que se multipliquem nas próximas; e envolver todos os departamentos da empresa, concluiu.

Construção sustentável

Hamilton Leite, vice-presidente do Secovi-SP e diretor da Brain Inteligência Estratégica Benefícios, discorreu sobre os benefícios econômicos e os beneficiários da construção sustentável. Entre estes, disse que a maior beneficiária é a empresa usuária de um edifício sustentável. A produtividade dos funcionários é maior do que nos imóveis comerciais convencionais, sua capacidade cognitiva aumenta, o sono melhora, ficam menos doentes. Portanto, a elevação da produtividade compensa largamente os investimentos em sustentabilidade.

Também o proprietário do imóvel é beneficiado: recebe valores maiores e consegue melhor valor de venda. O poder público tem vários ganhos, ao economizar em áreas como a saúde e o ambiente. Para o empreendedor, os benefícios vão desde melhor remuneração, taxas de juros menores e ganho de reputação. Para o consumidor, há melhora da qualidade de vida, e muitos outros benefícios contemplam o meio ambiente, a sociedade e a vizinhança.

Apesar disso, a construção residencial sustentável ainda engatinha, observou. Os empreendedores percebem uma série de obstáculos como custos adicionais com obras, certificação e consultorias; pouco ou nenhum incentivo público; e dificuldade para contratar profissionais, entre outras.

Entretanto, atendendo a Norma de Desempenho e todo o arcabouço normativo, no qual já há um grande número de práticas de sustentabilidade, o aumento de custo não chega a 2%, informou Carlos Borges. De acordo com Leite, a diferença pode ser de 5%, dependendo do grau de experiência do empreendedor no tema. Com a experiência que a empresa vai adquirindo, esse percentual tende a diminuir, completou.

“Olhando o edifício sustentável em seu ciclo de vida, os benefícios são compensatórios para os usuários, mas o custo adicional é pago pelo empreendedor. Aqui temos um problema.” Para resolver essa equação e fazer o empreendedor construir de forma sustentável, são necessários incentivos públicos, percepção do maior valor de mercado, aplicação de engenharia de valor, utilização do Lean e incorporação de itens que agreguem sustentabilidade aos projetos, concluiu Leite. “Quem sabe a geração Z que tanto preza a sustentabilidade, quando chegar sua hora de comprar imóveis, considere inconcebível adquirir uma moradia sem esse atributo.”

Manual de esquadrias

Marcos Veletri, coordenador do encontro e dos manuais de escopo, e Edson Claro de Morais, vice-presidente da Afeal (Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio), lançaram o Manual de Escopo de Esquadrias de Alumínio, desenvolvido pela Afeal em parceria com o Secovi-SP.

Veletri destacou a colaboração dada pela engenheira Maria Angelica Covelo e Silva na elaboração do manual. E relatou que a maioria dos manuais de escopo já está atualizada de acordo com a Norma de Desempenho.

Morais alertou para o risco de se privilegiar o preço em detrimento da norma, destacando a importância do manual para o mercado. A edição completa estará disponível a partir de 8 de julho.

O encontro contou com o patrocínio de Atlas Schindler, Eletromidia, Grupo Souza Lima, Hiperdados, Nova Ambiental, Promaflex e VIP Vistorias. Apoio: Abece, Abrainc, Abrasip, Abrava, Abrinstal, Afeal, AsBEA-SP, Pró Acústica, CBIC, Cobracon, Instituto da Automação, IBI Brasil e Proempi.

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