Economia

Construcarta Conjuntura: Um câmbio mais alto

A conclusão a que se pode chegar a partir desse quadro é que, de fato, devemos nos “acostumar” com uma cotação cambial mais elevada.

Por Redação SindusCon-SP 02/12/2019 11:22:56

Em uma declaração inesperada e surpreendente, o Ministro da Economia “aconselhou” recentemente os agentes econômicos a “se acostumarem” com níveis mais alto para a taxa de câmbio. O efeito sobre as expectativas e o comportamento dos agentes, como não poderia deixar de ser, foi imediato e a cotação do dólar rapidamente ultrapassou a marca dos R$ 4,20. Procurando afastar o aspecto inusitado desse episódio, a questão objetiva passa a ser analisar os fundamentos do câmbio no Brasil para corroborar ou não a fala da maior autoridade econômica do país.

Em primeiro lugar, é necessário analisar o comportamento da taxa real, isto é, da cotação nominal do dólar no Brasil, corrigida pela inflação interna (IPCA) e externa (IPA do EUA). Como se vê no gráfico a seguir, fechando o mês de novembro em R$ 4,20, a taxa de câmbio real ainda seria menor do que o pico histórico, atingido em meados de 2015 em pleno clima do processo de impeachment da presidente Dilma. Naquele mês de agosto, a cotação nominal aproximou-se de R$ 4 por dólar, mesmo com a atuação do Banco Central. Ao mesmo tempo, o patamar de R$ 4,20 estaria cerca de 13% acima da média do período 2014-2019 ou 12% além da média do período 2016-2019.

Mas os dados revelam algo mais. Nota-se a instabilidade da taxa de câmbio real no Brasil. Nos três principais picos da série mostrada no Gráfico (2008, 2015 e 2018), pode-se notar que a taxa de câmbio voltou a refluir, baixando após o estresse de mercado causado por eventos de impacto: respectivamente a crise financeira internacional, o impeachment e a última eleição presidencial. Também está claro que, em cada um desses episódios, as baixas da taxa de câmbio são apenas parciais. Esse é um fenômeno conhecido: o overshooting da taxa de câmbio. Em termos simples, sempre que o câmbio muda de patamar para cima, inicialmente ultrapassa seu novo nível de equilíbrio, devolvendo parcialmente a alta em seguida.

Constatado esse comportamento mais geral, cabe ainda menção a dois outros fatores relevantes. Um deles diz respeito à relação juros-câmbio. As reduções de juros no Brasil, fruto do baixo ritmo de crescimento da demanda e consequente clima de inflação baixa, tendem naturalmente a reduzir os ingressos de capital especulativo. Ao que tudo indica, dado seu espírito acadêmico, digno dos manuais de Macroeconomia, esse foi o fundamento por trás da afirmação inesperada do Ministro. Só em outubro, o país registrou saídas de US$ 4 bilhões na modalidade de capitais de curto prazo.

No entanto, se a relação juros-câmbio explica as flutuações de curto prazo da taxa cambial, a médio prazo o principal fundamento é o resultado global do balanço de pagamentos. Segundo o Banco Central, apesar dos bons resultados em termos dos ingressos de investimento direto no país (US$ 79,5 bilhões acumulados nos 12 últimos meses até outubro), o déficit em transações correntes se aprofundou ao longo de 2019 (US$ 54,8 bilhões na mesma base de comparação, equivalentes a 3% do PIB). E, supondo a aceleração do crescimento da demanda ao longo de 2020, ainda que em ritmo lento, a tendência seria o agravamento desse déficit.

Como resultado do conjunto de operações do balanço de pagamentos, em outubro, as reservas internacionais registraram redução de US$ 6,6 bilhões em outubro. Ou seja, a declaração do Ministro ocorreu em um momento de relativa escassez de moeda estrangeira, quando a cotação da moeda norte-americana naturalmente estaria pressionada.

A conclusão a que se pode chegar a partir desse quadro é que, de fato, devemos nos “acostumar” com uma cotação cambial mais elevada. A aceleração ainda que lenta da demanda doméstica, somada ao patamar muito baixo das taxas de juros no Brasil, são os fundamentos desse movimento. Mas, sem dúvida, o patamar acima de R$ 4,20 parece ser um típico pico de sobreajustamento (overshooting).

A análise mensal do SindusCon-SP e da FGV/Ibre está disponível aqui.









Horário de atendimento

seg-qui 08h00 às 18h00

sex 08h00 às 12h00

Rua Drº Bacelar, 1.043 | 5º andar

Vila Clementino,

São Paulo-SP,

04026-002

Tel (11) 3334-5600

sindusconsp@sindusconsp.com.br



Horário de atendimento

seg-qui 08h00 às 18h00

sex 08h00 às 12h00

Rua Drº Bacelar, 1.043 | 5º andar

Vila Clementino,

São Paulo-SP,

04026-002

Tel (11) 3334-5600

sindusconsp@sindusconsp.com.br