Avanços em fachadas industrializadas

Rafael Marko

Por Rafael Marko

Avanços em fachadas industrializadas

Seminário reuniu 150 pessoas no São Paulo Expo

As vantagens das fachadas industrializadas e de suas diversas tipologias e tecnologias constituíram os destaques do seminário sobre esses sistemas realizado pelo SindusCon-SP, que reuniu cerca de 150 participantes em 6 de novembro, no São Paulo Expo.

Ao abrir o evento, Yorki Estefan, presidente do sindicato, destacou que “a industrialização da construção é cada vez mais premente, em função da escassez de mão de obra e da busca incessante por produtividade. Esperamos que essa tendência se acentue com a reforma tributária, tornando os sistemas industrializados cada mais acessíveis às construtoras. Este evento é mais uma realização do SindusCon-SP, dentro de nossa missão de levar conhecimento tecnológico e atualizações para as nossas construtoras associadas.”

Luis Fernando Bueno, coordenador do (CTQ) Comitê de Tecnologia e Qualidade, afirmou que “a industrialização da construção é um processo irreversível. Neste contexto, as fachadas industrializadas representam um grande avanço, mas também nos trazem novos desafios. E para mostrar como podemos enfrentar esses desafios, organizamos este evento. Buscamos reunir profissionais que têm vivência com esses sistemas e trazer casos práticos.”

Requisitos de desempenho

Abrindo os trabalhos, Luciana Alves de Oliveira, diretora da Unidade de Habitação e Edificações do IPT, abordou os requisitos de desempenho que as fachadas devem apresentar e as características dos sistemas de fachadas industrializadas leves. Ela mostrou os níveis de complexidade desses sistemas e como eles vão ganhando mais participação no mercado. Descreveu a fachada cortina e a semi-cortina ventilada, discorreu sobre as diversas configurações de tecnologia e os diferentes graus de industrialização.

A engenheira abordou os requisitos de desempenho, de acordo com as condições de uso, de exposição e de exigências específicas. Aprofundou-se nos requisitos de segurança, habitabilidade e sustentabilidade, esta com seus aspectos de durabilidade, manutenibilidade e desmontabilidade. Relatou as normatizações já existentes.

Ela destacou os pontos de atenção a serem observados na execução das fachadas leves, como os deslocamentos que precisam constar dos cálculos estruturais, e a previsão de ao menos dois tipos de fixações, para suporte de peso e para cargas acidentais e movimentação. Destacou a importância de testes destinados a aferir a resistência ao fogo para os materiais da fachada e situações de edifícios altos. Chamou a atenção sobre os cuidados para se evitarem infiltrações, corrosão e outras patologias, bem como o cuidado na escolha de fornecedores que possam prestar assistência ao longo do tempo. E acentuou que a gestão do processo de projeto e execução da fachada industrializada é diferente daquela convencional.

Painéis de concreto

Marcelo Guaranha, membro do CTQ e gerente de Sustentabilidade e Pós-Obra da Construtora Adolpho Lindenberg, apresentou o case de fachada industrializada em painéis arquitetônicos de concreto do empreendimento Praça Lindenberg Itaim, executado durante a pandemia. Mostrou os desafios que foram superados em mão de obra, materiais, logística, desempenho e sustentabilidade, entre outros, mediante a decisão de trocar a fachada de tijolinhos pela pré-moldada, com o envolvimento de um bom fornecedor desde a fase de projeto.

O engenheiro destacou a importância do planejamento da atividade da grua e da logística. Apresentou o protótipo, o projeto de montagem, a logística no canteiro com a grua operando a montagem da fachada das 18h às 22h, o fluxo da montagem, o atendimento às normas técnicas e as orientações para a manutenção. Foram colocados 4.100 painéis distribuídos em 20 tecnologias. O empreendimento recebeu os prêmios da Abcic, o Master Imobiliário e o Prêmio Seconci-SP de Saúde e Segurança do Trabalho, na categoria Controle de Riscos no Canteiro.

Produtividade e custos

Alexandre Hiroaki Takara, coordenador de Desenvolvimento Técnico na Saint Gobain, mostrou casos de empreendimentos com fachadas em sistemas leves: a aplicação da Glasroc X da Saint Gobain em Curitiba, no aeroporto de Florianópolis, no edifício anexo ao Masp, em empreendimentos no bairro do Brooklin, em Vila Velha (ES) e em Salvador, alguns dos quais também revestidos com placas cimentícias fabricadas pela empresa. Chamou a atenção para a necessidade de construtora e indústria trabalharem juntos, desde a fase de projeto até o pós-obra, e da garantia técnica de todo o sistema de fachada. E falou dos ganhos como redução de mão de obra, redução de prazos e melhorias contínuas.

O consultor especializado José Marmo destacou a importância de melhorias contínuas em todo o sistema produtivo, de forma simples, enxuta e sustentável. A montagem da estrutura de concreto com a tecnologia de fachada, de forma sincronizada e em fluxo contínuo, reduz significativamente o prazo de execução, compensando o custo maior da fachada. Detalhes de embalagem, transporte, içamento e fixação dos painéis são relevantes nas melhorias contínuas para garantir um fluxo constante de produção, acrescentou.

Leonardo Arantes, country manager Brasil da Knauf, e Fábio Kenji Shiokawa, sócio na 1FK Consultoria, mostraram os desafios e as decisões tomadas para possibilitar a execução das fachadas industrializadas. Shiokawa apresentou o desenvolvimento do projeto, os testes, o dimensionamento e a escolha das esquadrias em empreendimentos em Itapema (SC). Listou os ganhos, como menos prazo de execução, menos utilização de mão de obra e redução de resíduos.

Nos debates, coordenados por Luis Fernando Bueno, Arantes destacou a importância de fornecedores e instaladores verificarem se a montagem está seguindo estritamente o que preconiza o manual, a fim de evitar patologias como o efeito ghost. Takara destacou a importância de uma especificação adequada dos insumos e de se seguir os prazos de manutenção. Marmo mencionou o uso de drones para acompanhar a fachada até cinco anos após sua execução. Shiokawa alertou para a necessidade de testes feitos na obra, e não apenas em laboratório.

Takara disse esperar que o mercado entenda a necessidade de se usar materiais bem especificados e normatizados no revestimento, para prevenir riscos de incêndio e ao mesmo tempo elevar o desempenho térmico da fachada.

Revestimento cerâmico

Carlos Moraes, diretor de Operações da Venfaq, e Fernanda Machado Santos, especificadora técnica no canal Engenharia na Roca Cerâmica, apresentaram um case de tecnologia de fachadas ventiladas com revestimento cerâmico de alta performance 7 mm, em edifícios altos à beira-mar do Taj Home Resort, no litoral de Santa Catarina.

Moraes mostrou os motivos da opção por esse sistema, diante de desafios como a alta salinidade, a elevada velocidade dos ventos e a altura de 160 m de um dos edifícios do resort. Fernanda abordou os atributos de sustentabilidade, facilidade de limpeza e outros. Moraes relatou as particularidades em planejamento, ensaios, impermeabilização, fixação, ancoragem e colocação – as placas são penduradas. Apontou as vantagens como conforto térmico e acústico, proteção à radiação e às intempéries, atenuação do ruído, leveza, maior durabilidade e material 100% reciclável.

Orçamento e viabilidade

Luiz Henrique Ceotto, membro honorário do CTQ e diretor da Urbic Incorporadora, explanou sobre como orçar fazendo a análise correta da viabilidade do uso de fachadas industrializadas.

Ele comentou que as fachadas pré-moldadas, fabricadas em placas de concreto armado de alta resistência, são fabricadas há 30 anos. Hoje são mais de mil prédios executados no país com esse sistema que, segundo ele, tem excelente qualidade e praticamente zero tipologias. Chamou a atenção para cuidados como execução do projeto em BIM, direcionamento e fixação correta dos apoios, alinhamento da junta 10 cm acima da laje, não interferência da fachada com a estrutura, as esquadrias devem caber totalmente no interior da peça, a montagem de 10 a 12 peças por dia, e mínima interferência da grua na estrutura.

De acordo com Ceotto, a principal vantagem é a precisão, além de beleza, ganho de prazo de 4 a 8 meses dependendo da altura da obra, e conclusão da fachada dois meses após o término da estrutura. Seu preço mais elevado é compensado pela economia em materiais, redução de prazo, inexistência de patologia, baixo custo de assistência técnica e benefícios estéticos como cores mais uniformes e duráveis.

Planejamento e logística

Hylton Olivieri, diretor da Scheduler Construction Experts, abordou as questões relacionadas a planejamento, logística e produção de obras com fachadas industrializadas. Mostrou os fatores de análise a serem considerados no planejamento e controle, mediante as metodologias de Lean Construction e Lean Office, como valor ao cliente, processo colaborativo desde o planejamento, geração do fluxo de produção, eliminação de desperdícios, logística just in time e incorporação de melhorias contínuas, até o pós-obra.

O engenheiro mostrou as vantagens das fachadas industrializadas sobre as tradicionais, como maior rapidez na execução e utilização de menos mão de obra.

Seguiram-se debates coordenados por Paulo Aridan Mingione, coordenador do Grupo de Trabalho de Gestão e Produtividade do CTQ. Ceotto afirmou que o setor precisa mudar sua percepção e agir, industrializando-se, e que a mudança precisa vir acompanhada de uma alteração maior na cultura das empresas, comentou. Citou Roberto Campos, segundo o qual a industrialização foi a maior revolução que ocorreu, e atribui o fato de ela não ocorrer na construção a diversos fatores. Preconizou o preparo dos projetistas para trabalhar com grandes escalas. A partir de agora, acrescentou, não teremos mais mão de obra e a construção precisa se conscientizar disso, melhorando salários e a produtividade. “Quem não se enquadrar nisso, vai quebrar.”

Segundo Paulo Aridan, o consumidor deverá liderar essa mudança na construção, além da reforma tributária, trazendo novos fornecedores e sistemistas de fachadas. Olivieri afirmou que ainda enfrenta resistências à industrialização, mas a seu ver essa questão começará a mudar em função da escassez de mão de obra.

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